sábado, 17 de maio de 2014

Super Homem


Eu estou gravemente doente. Ao contrário do que muitos fantasiam, não tiro de letra. Não sei o porquê, mas existe uma ideia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos parecer herói. Nãnanina não! Quem recebe uma notícia dessas não consegue ter pensamentos belos. Bem... eu não consigo. A cobrança de positividade acabou se tornando um problema. Me olho no espelho branco, inchado e de cabelos curtos (quando tem cabelos) e me acho pronto para fazer figuração na Lista de Shindler. Começo a achar que não tenho chances de sobreviver à doença, pois só pessoas que não tem pensamentos como os meus sobrevivem. Muitas vezes deixo de viver, comprar, sair por que a grana não pode acabar por causa do maldito tratamento. Bem, se na minha cabeça é esse o pensamento que reina ... Sem chance.


O mundo moderno é incrível. Tudo é maravilhoso, não existe sofrimento! As separações são sempre amigáveis e sem lágrimas, as mães não tem mais o direito de embarangar e ficar em casa lambendo a cria. Um mês depois estão lindas, magras, com barriga sarada! Os profissionais não ficam desempregados, estão sempre felizes com um convite que ainda não pode ser revelado! Quimioterapia é moleza! Vem cá, só eu que não moro na Disney?
Hoje percebo que precisei viver esse luto. Ele passou, apesar do medo vou sempre confiante para o hospital. Mas outras angústias vieram. Sofri pelo que é “o de menos”, chorei pelos cabelos, pela falta de privacidade, perda da liberdade e pelo ... resto que vocês sabem. Chorei (e choro) pelas dores , enjôos, injeções e tudo mais. Eu me dou esse direito. Eu me dou o direito de ser humano. O Super-Homem mora na televisão, eu moro no Inácio Barcosa, Aracaju, SE mesmo. O Super Homem dá aquele impulso e sai todo bonitão e imponente voando para salvar pessoas. Se eu fizesse a mesma coisa cairia estabacado com a careca no chão. Então meu vôo é bem devagarzinho segurando na mão de meu irmão, da minha cunhada e dos meus queridos amigos que mesmo distantes tanto fazem por mim (não esqueci da campanha para a compra do glivec, isso vai ficar marcado para sempre). Vôo amparado por uma equipe que além do Dr Roberto ainda tenho todos os enfermeiros e profissionais de medicina que são simplesmente maravilhosos comigo. Vôo rindo e chorando com centenas de comentários na minha página de besteiras (Vamos Todos Morrer Mesmo) no Facebook. Vôo para salvar a mim mesmo.
Sinceramente, não acredito em uma seleção divina. Muitas pessoas bacanas e crianças morrem e isso não é nem um pouquinho justo. Acho um saco quando dizem “ Fulano perdeu a batalha contra o câncer” , “Fulana tem tanta vontade e alegria de viver que foi salva”ou “ O amor por meus filhos me salvou”. Me parece tremendamente injusto. Quer dizer que quem morre não amava a vida? O amor pelos filhos não era grande o suficiente? A fé foi pouca? Pensamento bem cruel, não é mesmo? E é uma coisa bem esquisita, isso só acontece com o câncer, a única doença tão estigmatizada. Ninguém diz que alguém perdeu a batalha para a hepatite, nem que amava tanto a vida que ficou bom da tuberculose.
Quando virem uma foto  em que estou com um largo sorriso. Ou com alguns poucos amigos que me restaram e se tornaram minha família. Eu estava verdadeiramente feliz. Sem a pílula da felicidade, sem fingir meus sentimentos, sem bancar o herói. Era eu simplesmente feliz.  Não julgue que não há mais doença (quisera eu!), mas há ali uma oportunidade pra me desligar e viver plenamente.
E agora ... chega desse assunto! Eu sou um grande profissional e tô mais preocupado com o um convite que não pode ser revelado.