domingo, 5 de junho de 2011

Das encadernações caprichadas

“À mulher de César, não basta ser honesta, tem que parecer honesta.” Essa despretensiosa afirmação ensina-nos muito mais do que parece. É um conselho sobre nossa conduta, seja ela profissional ou pessoal.
Muitas vezes, “parecer” é até mais importante do que “ser”, pelo menos para o nosso convívio social. Veja bem, em momento algum eu faço apologia às aparências, mas fato é que nossa cultura corrobora esse tipo de comportamento.
Imagine esta situação hipotética: Você vai a uma clínica, logo na entrada encontra tudo meio bagunçado, luz fluorescente com reator queimado (piscando). A recepcionista não usa um computador, só uma agenda toda rabiscada. Suas roupas parecem saldo do clipe Thriller, do Michael Jackson. Dentro do consultório, vê que o médico usa um jaleco branco amarelado, não por ser velho, sujeira mesmo, todo amarrotado, e por dentro dele uma camisaHering com “bolinhas” na gola, aquelas que dão depois da ducentésima lavagem. Ele lhe sorri meio de lado, escondendo a falta de alguns dentes e lhe convida para sentar. O encosto da cadeira é uma imitação barata de couro, que por estar ressecado e furado, começa a beliscar-lhe as costas. Tenho certeza que você não confiará plenamente no diagnóstico, mesmo que esse possa lhe parecer coerente.
Ele poderia ser um ótimo médico, mas não aparentava ser. Contudo, se você encontrasse uma clínica hi-tech, uma recepcionista com uniforme impecável, daquelas que só de olhar você tem a certeza de que fala no mínimo cinco idiomas, um médico todo engomadinho, de jaleco branquinho impecável, lavado com OMO e Vanish, cheirando à Confort, gravata amarela com nó duplo, etc, etc, ele até poderia ser um charlatão, mas o “contexto” lhe convenceria do diagnóstico, fosse ele qualquer baboseira.
Nos relacionamentos é mesma coisa. Não basta amar, é preciso demonstrar, materializar esse sentimento, só assim a outra pessoa poderá ter certeza de que é amada, respeitada. É como aquela letra do Extreme, More than words: “como seria fácil se você mostrasse como se sente… mais do que palavras… fechar seus olhos, estender as suas mãos, me tocar, abraçar apertado, nunca me deixar ir embora…”  É também como aqueles filhos que dão trabalho o ano todo para a mãe e no segundo domingo de maio chegam faceiros, com uma lembrancinha debaixo do braço, achando que aquilo vai compensar todos os fios brancos. Não basta amar, é preciso demonstrar!
Sei que não se deve julgar um livro pela capa, contudo, é muito mais fácil vendê-lo se a encadernação for caprichada. Não é isso que chamam de marketing pessoal? Vender nossa imagem…?! Uma vez  que há tanta gente que só vive de aparências nesse mundo, já está passando da hora de pessoas que realmente têm valor, demonstrarem isso também. Só assim conseguirão tomar o espaço daqueles que usurparam o tão sonhado lugar ao sol.