sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cultivando o bem que há em cada um.

Cultivo em meu apartamento uma pequena pimenteira. Em outro vaso, cheguei a cultivar cerca de sete pés, mas após um pequeno acidente – uma queda da janela do quarto andar – o vaso ficou vazio. Sempre rego minha pimenteira à noite, antes de dormir. É uma espécie de ritual.
Dia desses, notei que no vaso vazio, que fica sempre ao lado de minha pimenteira, começou a crescer uma plantinha. Nunca regava esse vaso, mas pensei que a água da chuva pudesse ter iniciado a germinação de alguma semente ali esquecida.
Fiquei feliz pelo “nascimento” da plantinha e comecei a regá-la diariamente. Sempre que chegava em casa, corria para a área de serviço para ver como estava a mudinha. Adquiri certo carinho pela mesma, confesso. Foi algo inesperado em minha vida e como eu havia semeado aquela terra tempos atrás, me sentia responsável pelo seu cultivo.
O tempo passou e comecei a estranhar aquela mudinha de pimenta. Suas folhas eram bem diferentes, mais alongadas, não tinha um caule bem definido. Em um primeiro momento, não me importei, não sou nenhum botânico, assim não poderia explicar o porquê daquilo, fiquei intrigado.
Hoje pela manhã, após um exame minucioso, cheguei ao veredito: Elionurus Candidus. O bom e velho capim! Fiquei um pouco frustrado, afinal, passei mais de uma semana cultivando mato. Era o fim de minha prodigiosa carreira de agricultor, uma vez que o ocorrido a macularia para sempre.
Isso me fez pensar. Refletir sobre como esse tipo de situação acontece frequentemente em nossas vidas. Por vezes, “cultivamos” amizades, afetos, amores e nos frustramos em descobrir que não eram bem o que queriamos. Não eram exatamente o que esperávamos.
Será que a “pobre” mudinha de capim teve alguma culpa afinal? Essa é sua natureza. Ela não poderia ser outra coisa. Desde o início ela não tentou me enganar. Não se muniu de nenhuma máscara para se passar por outra coisa senão ela mesma. Eu é que, cego, fui icapaz de perceber que não se tratava de uma mudinha de pimenta.
Cada pessoa possui uma natureza, uma personalidade, uma forma diferente de se mostrar para o mundo. Cada um tem defeitos e qualidades, mais de um menos do outro. Será que não é nossa a culpa pelos outros não serem exatamente do jeito que queremos? Será que não somos nós quem construimos um ideal, um modelo de como os outros deveriam ser e passamos a qualificar todos conforme aquele molde?
Cheguei a conclusão de que em diversos momentos de minha vida, projetei nos outros aquilo que eu queria para mim. Exigi dos outros um comportamento que eu mesmo não conseguiria manter. Esperei das outras pessoas ações que não eram de sua natureza. E como não poderia deixar de ser, fui iludido pelos meus próprios desejos, projeções e julgamentos.
Acho que esses devaneios me fizeram mudar, bom, pelo menos vou tentar de agora em diante não construir ideais para o comportamento dos outros. Vou esperar pra ver se são pimenteiras ou pés de capim. Se forem pimenteiras, bom. Se não, se forem capim, não vou deixar com que isso interfira, afinal, todos – até mesmo as ervas daninhas – têm uma razão de existência.
Prova de que isso mudou meu comportamento é que de agora em diante, ao lado de minha pimenteira, cultivarei um pezinho de capim.