sábado, 24 de julho de 2010

O Umbigo de Adão

Mais interessante que o místico é o desmistificador. Prova disso é o sucesso feito pelo Mister X, o mágico sacana que contava como eram feitos os truques no Fantástico. Outro que sempre atrai a atenção é o Padre Quevedo, chamando paranormais para o pau e mostrando como enfiar alfinetes no gogó sem sentir dor ou como entortar colheres com a ponta dos dedos. Há algum tempo, o mágico americano James Randi desafiou o mais famoso paranormal brasileiro, Thomas Green Morton, para a briga. Thomas não apareceu, mandou dizer que tinha ido viajar…
Randi é amigo de Martin Gardner, best-seller nos EUA com seu O umbigo de Adão, lançado aqui porcamente pela Ediouro (2002). Digo porcamente pois alguns erros de tradução são evidentes até mesmo sem que se tenha o original em mãos – sem contar a falta de revisão que deixou passar erros de digitação do tradutor. Mas vale ser lido, embora hoje só possa ser encontrado em sebos.
Na contracapa, algumas das pessoas que indicam o catatau do Gardner: Arthur C. Clarke, Stephen Jay Gould e Noam Chomsky. Mas é exagero. Apesar de desmistificador contumaz das mais recentes “modas” (em vários segmentos), falta a Gardner justamente o ataque. Ele mostra a ignorância dos que acreditam em qualquer merda mas não grita no ouvido deles: ignorantes! É um autor soft, com um certo wit, manja? Não por acaso, é também amigo do Richard Dawkins. Clean people, não chegam a Hitchens.
O umbigo de Adão do título dá nome também ao capítulo inicial, uma contextualização da recente moda do Criacionismo, espécie de “nova teoria da criação e da evolução” desenvolvida em vários graus e sustentada em tantos outros por teístas de todo panteão.
Basicamente acreditam mesmo que a Terra foi criada há cerca de 10.000 anos, em seis dias consecutivos e o homem e os animais foram plantados aqui por Deus. Os Deuses e as formas como isso aconteceu dependem de cada credo “criacionista”. Eles refutam Darwin e os paleontólogos e todos os outros estudiosos. Uma corrente, chamada de “Design Inteligente”, acredita piamente que Deus “plantou” fósseis de animais Pré-Históricos nas rochas – além de outras evidências.
Gardner tenta, não com total sucesso, ao meu ver, detonar a Teoria dos Sonhos de Freud utilizando alguns dos mais recentes estudos científicos que dão conta de que os sonhos não significam nada, é atividade inconsciente que pode coincidir nisso ou naquilo – mas nada de desejos reprimidos ou premonições paranormais, como querem fazer valer os gnósticos.
O melhor capítulo, para mim, é o que fala sobre os OVNIs. Gardner conta a incrível história de um senador americano nascido rico, facilmente impressionável, crente em vida fora da Terra, que persuadiu durante anos vários departamentos americanos a investir em programas de procura de vida inteligente no espaço, em testes com paranormais e em abduzidos. O resultado? Nada, zero! Milhões de dólares pelo ralo. O nome do camarada é Claiborne Pell.
Tem também a história de Courtney Brown. É um professor de ciência política em Atlanta que “inventou” uma técnica de Meditação Transcendental, chamada “vôo iogue”, que o permite tornar-se invisível, atravessar paredes e mais: viajar no espaço, entrar em espaçonaves alienígenas, entrar nas mentes dos ETs e saber todos os seus planos! Levou, papudo?
Incrível como tem gente que cai na lábia desses caras. Não dá pra acreditar no livro que esse cara escreveu contando TODA conspiração galáctica para tomar a Terra! O livro vendeu milhões. Mas dá para acreditar em um dos seus efeitos: o suicídio de 38 inocentes em março de 1997 no Rancho Santa Fé (!), Califórnia. Eles pertenciam à seita Heaven’s Gate e acreditavam que iriam embarcar em uma nave espacial que viajava junto ao cometa Hale-Bopp. Quem viu essa nave? Courtney Brown – que continua vivo, ganhando dinheiro.
A terrível e impressionante história de Heaven’s Gate também está no livro de Gardner. Tem muito mais. Vai procurar e vê se pára de acreditar em tudo.