segunda-feira, 5 de julho de 2010

COMO SER POLITICAMENTE CORRETO

O conceito de politicamente correto é uma coisa até bacana. Com ele, você procura combater seus próprios preconceitos e canalhices e, se todos praticarem, o mundo seria um lugar melhor para se viver. Mas na prática, politicamente correto não passa de um mero disfarce para seus preconceitos se desenvolverem em paz, longe das críticas dos outros.

Por exemplo, não tem coisa mais preconceituosa com um negro do que chamá-lo de afro-brasileiro. O cara é negão, não está vendo? Você é daltônico ou o quê? Por que é que, então, você não chama a loira de nórdica-brasileira ou o índio só de brasileiro? O fato de necessitar de um eufemismo para o negro implica que você considera negro uma ofensa.


Mas ser politicamente correto está na moda. Então, se você não quer ficar fora dessa, deve começar ampliando seu vocabulário. Se possível, leia todo o dicionário. Você vai precisar de muitas palavras, nessa sua nova postura. É um pouco difícil decorar tantos verbetes, mas logo você já está inventando seus próprios termos como pessoa desavantajada verticalmente (baixinho), pessoa avantajada horizontalmente (gordo), rapaz de peferências sexuais alternativas (viado) ou fruto de uma relação financeiramente remunerada (filho da puta). O mais legal é que você pode xingar as pessoas com esses nomes e, na maioria da vezes, elas não vão entender nada.


Filie-se a uma ONG. Qualquer uma, não importa. Além de ser uma atitude super cool, você ainda limpa sua consciência sem esforço. Por exemplo, doe dez reais por mês a uma organização ecológica. É o suficiente para você sair por aí desperdiçando água, espalhando CFC na atmosfera e jogando latinha de cerveja vazia na rua sem sentir remorso nenhum. É batata (aliás, transgênica).


Seja um sujeito do contra. Não importa a coerência, o que vale é protestar. Por exemplo, seja ferozmente contra a sociedade de consumo. Tenha sempe um discurso socialista na ponta da língua e ponha toda a culpa no capitalismo. E se, depois de tanto protesto bater uma depressão, vá ao shopping fazer umas comprinhas que passa.


Trabalho voluntário também pega muito bem. Quem é que vai acusar alguém que cuida de crianças carentes, de velhinhos no asilo ou de deficientes desamparados? Você pode cometer as maiores barbaridades depois, que está com a ficha limpa. E nem precisa muito esforço: uma hora por semana num orfanato está ótimo. Nas outras 167 horas, as crianças que se fodam. Quem mandou não ter pai e mãe?


Faça caridade. Escolha uma instituição filantrópica e dê um punhadinho de reais por mês. É um investimento. Imagine que, por exemplo, você colabore com uma assossiação de apoio a deficientes. Quando algum aleijado vier te vender balinhas no farol, é só dizer que você já contribui com os deficientes. Você economiza horrores e ainda evita as malditas calorias das balinhas.


Considere que seus gostos artísticos são superiores que qualquer outro. E mais, tente reprimir qualquer outra manifestação cultural ou de entretenimento que não seja a sua. É simples: comece assinando aqueles abaixo-assinados contra a baixaria na TV. Escreva artigos pedindo a extinção de programas populares, para dar lugar a programas educativos (a programação vai ficar mais chata, mas você só vê TV a cabo mesmo). Logo você se transforma num grande entusiasta da censura: se for habilidoso, pode se tornar o próximo ditador da era moderna; se não, vai ser mais um babaca antenado.


Seja engajado. Brigue pela proibição das propagandas de bebida alcoólica e cigarro. Organize pessoas e faça passeatas em frente às fábricas de cerveja e de tabaco. Encaminhe sugestões para os políticos. E quando alguma delas for aceita, você comemora enchendo a cara e fumando feito louco.


Pronto. Você já é politicamente correto e já pode ser admirado por todos os moderninhos como você. Encha o peito, orgulhoso, e mostre sua atitude. Provavelmente você não vai ajudar a resolver nada efetivamente. Mas e daí? Você não tem que resolver todos os problemas do mundo, né?