terça-feira, 18 de maio de 2010

O TEMPO - V

Não vamos perder o rumo da conversa. Nosso objetivo era entender por que o tempo parece mais acelerado. E como podemos aproveitá-lo melhor.

Nós fomos formados pela empresa moderna e pelas escolas profissionalizantes onde o resultado e a produtividade são os deuses mais importantes. Tudo o que fazemos na empresa e na escola precisa ter um objetivo racional e aceitável pela comunidade. Se não, provavelmente vamos ouvir: “por que você quer fazer isso?”, “o que eu ganho com isso?”, “para que serve essa geringonça?”, “e se não fizermos isso, vai acontecer um desastre?”.

Por outro lado, temos que ter a maior eficiência possível, para não corrermos o risco de ouvir das pessoas coisas como: “você já analisou a relação custo-benefício disso?”, “vamos tentar fazer mais barato”, “cortando esta e aquela parte da peça não dá para economizar uma cabeça?”. A própria terminologia utilizada transforma tudo em conceitos de utilidade: cabeças, mão-de-obra, custo-benefício, caro-barato etc.

Agora imaginem um artesão da Idade Média construindo uma cadeira cheia de entalhes, desenhos, bem artística. Ou um monge copiando um livro cheio de iluminuras e caligrafia caprichada. Com certeza eles valorizavam outros aspectos da vida para trabalhar daquele jeito. É claro que naquela época também se tentava evitar o desperdício de tempo e custo, mas as pessoas levavam em conta outros elementos. Ou seja, nem sempre foi como é agora. Melhor dizendo: apenas nos últimos cem anos é que o mundo entrou no binômio resultado-produtividade. Indo mais longe: se não foi sempre assim, precisará ser assim a partir de agora e para sempre?

Com certeza não, mas essa é uma discussão que precisa ser feita mais adiante, num outro tema.

Agora, se esses valores ficassem restritos às empresas, tudo bem. O problema é que nós ficamos tão condicionados por esses aspectos que os trazemos para a nossa vida pessoal. Isso, sim, faz parte desta discussão, porque afeta a qualidade de vida.

Será que vocês já se pegaram dizendo, num passeio com a família: “Vamos cortar caminho por aqui, que é mais rápido”? Ou: “Amanhã vamos acordar bem cedo para aproveitar mais o dia na praia”. Ou ainda: “Com essa chuva não dá pra fazer nada no fim de semana”.

A produtividade e busca de resultados impregnaram-se em nós de tal forma que, num passeio pela Europa, vamos ficar felizes se pudermos conhecer oito países em duas ou semanas, tirando dezenas de fotos para depois poder mostrar vaidosamente aos amigos. Aliás, a documentação da viagem é talvez o resultado socialmente aceitável para quem viaja dessa maneira.

Nós costumamos fazer compras pela internet para não ter que caminhar até a loja – e depois vamos exercitar os músculos na academia duas vezes por semana. Andamos de carro para qualquer lugar, porque é mais rápido e seguro – e depois vamos fazer caminhada ou corrida porque é saudável.

Parece evidente que, com essas prioridades, outros aspectos importantes da vida de perdem. Se alguém disser que pretende estudar Filosofia ou Polonês apenas porque gosta, vamos olhá-lo atravessado e, se tivermos alguma liberdade, vamos questioná-lo sobre o resultado prático que ele espera daquilo.


Juntando tudo o que foi comentado – e isso é apenas uma parte do assunto – podemos concluir que esticar ou encolher o tempo não vai resolver a qualidade ruim da nossa vida. Precisamos é viver cada momento com a satisfação de estarmos fazendo algo que realmente valha a pena para nós. E aqui não há regra, cada pessoa vai saber com certeza o que vale a pena para si.


Saint-Exupéry, no livro que até as candidatas a concurso de beleza lêem, disse: “Eu (...), se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte...". Leiam/releiam o livro todo que vale a pena. Está na internet (http://opequenoprincipe.50webs.org).