segunda-feira, 17 de maio de 2010

O TEMPO - IV

Essa é minha penúltima postagem sobre o tempo, prometo que não volto mais no assunto quando estivermos na 5º postagem, quem tiver alguma sugestão ou crítica fique à vontade, enquanto isso:
Uma outra visão interessante sobre o aproveitamento do tempo é dada pelos estudiosos de Análise Transacional.

A Análise Transacional é uma forma de popularizar conceitos importantes da Psicologia através de um conjunto de técnicas aplicáveis à vida prática por qualquer pessoa. Uma dessas técnicas é a estruturação do tempo.

Tudo parte da mesma idéia: o tempo é muito curto, portanto temos que decidir a cada momento o que vamos fazer na hora seguinte para aproveitá-lo bem. Parece que as crianças não têm esse tipo de preocupação, porque vão vivendo cada minuto da maneira mais divertida que conseguem. Já os adultos estão sempre diante de dúvidas como “devo assistir ao filme da seção noturna e amanhã ficar com sono no trabalho?” ou “o que eu posso fazer no sábado à noite para realmente me divertir?”

Numa tentativa de compreensão desses impasses, a Análise Transacional elencou seis tipos de experiências que se traduzem nos tipos correspondentes de aproveitamento do tempo: retração, ritual, atividade, passatempo, jogo e intimidade.

A RETRAÇÃO acontece quando nos voltamos para dentro de nós mesmos, seja num pensamento de preocupação, numa fantasia sobre como seria bom estar na praia ou na lembrança de um encontro agradável. Podemos estar no trabalho, num almoço de negócios ou em qualquer outro ambiente social, mas nesse momento estamos retraídos, sem comunicação com as outras pessoas. É uma maneira inofensiva de passar o tempo mas a pessoa retraída perde a oportunidade de transacionar com quem está por perto.

O RITUAL é o uso de fórmulas socialmente aceitas de convívio sem envolvimento. Pode ser até agradável, mas as pessoas não se aproximam umas das outras, permanecem separadas. Exemplos de rituais são as boas-vindas, os coquetéis, o abraço dos políticos, os cumprimentos de aniversário e a festa de Natal. O beijo de boa-noite de alguns casais pode ser um simples ritual, se for feito como algo programado e mecânico.

A ATIVIDADE inclui lavar o carro, escrever uma carta, resolver um quebra-cabeça, fazer uma reunião de negócios, ir ao supermercado ou estudar para as provas. Muitas vezes as atividades trazem satisfação para a pessoa, seja pelo momento, como ler um livro, ou como preparação para o futuro, como fazer um bom trabalho para ter o elogio do chefe. Como elas não exigem o contato íntimo, muitas vezes são utilizadas como fuga para evitá-lo, como no caso da pessoa que trabalha até tarde para não ter que ficar muito tempo com a família ou aquela que se justifica dizendo que precisa ganhar dinheiro em vez de fazer amigos.

O PASSATEMPO é exatamente isso: uma forma de passar o tempo, deixá-lo escoar de uma maneira que parece agradável. Acontece por exemplo, no elevador, falando com os outros passageiros sobre o tempo ou criticando a demora do porteiro, até desembarcar. Pode ser uma forma de evitar sentimentos de culpa, desespero ou intimidade “até que se conheça melhor a pessoa”, “até a hora de dormir”, “até as próximas férias”, “até que eu fique bom...” Temas comuns de conversas de passatempo: falar sobre moda, modelos de carro, tamanho da fila do banco, preços, como acender a churrasqueira, em quem você votou etc. O passatempo pode ser útil em certas circunstâncias, mas o relacionamento não progride além disso, e as pessoas continuam separadas e sentindo tédio e desespero.

OS JOGOS são a pior forma de estruturar o tempo. Na Análise Transacional, jogo não tem nada a ver com esporte ou diversão. Ao contrário. Trata-se de um conjunto de transações entre duas ou mais pessoas que progridem até um fim esperado e definido. Há sempre uma motivação oculta, uma aparência aceita e um truque no final. Formas básicas de jogo são “o meu é melhor do que o seu” ou “por que isso sempre me acontece?” A motivação das pessoas que praticam os jogos é negativa: é melhor ter um estímulo negativo do que não ter nenhum. Então elas seguem o script até que o interlocutor se canse, dê uma resposta atravessada ou se afaste. É quando o jogo chega ao fim, com o sentimento de que “eu sabia, ninguém gosta mesmo de mim”. O jogo é útil porque mantém a privacidade de quem joga, pois preserva o afastamento dando a impressão de que as pessoas procuraram se aproximar.

A INTIMIDADE se baseia na aceitação das pessoas da forma como elas são. É a ausência do medo que possibilita essa percepção da outra pessoa sem necessidade de retração, jogo, ritual, passatempo ou atividade. Não é preciso estruturar defensivamente o tempo. Também não é necessário destruir-se ou destruir o outro como nos jogos. Quando estamos numa relação de intimidade vivemos o presente e não estamos preocupados em fazer o tempo passar. Podemos fazer planos, mas não gastamos tempo sonhando sozinhos. Mostramo-nos como somos, sem necessidade de fingir, e aceitamos as outras pessoas como são.

Em resumo, os jogos geralmente são destrutivos e a retração, a atividade, ritual e passatempo podem e devem ser utilizados vez ou outra. Nas palavras de Thomas Harris (*): “A retração pode ser um modo tranqüilo e restaurador de solitária contemplação. Os passatempos podem ser uma forma agradável de conviver socialmente. Os rituais podem ser divertidos (...) porque repetem inúmeras vezes momentos de alegria que podem ser antecipados, com os quais se pode seguramente contar e que podem ser rememorados. As atividades, que incluem o trabalho, não são apenas necessidades da vida, mas são gratificantes pelo que representam em si, permitindo que através delas se expressem inúmeras habilidades e talentos (...) A atividade em si não é destrutiva, a menos que a compulsão de estar ocupado seja na verdade a compulsão de estar separado”.

Já a intimidade pode ser praticada a todo momento, desde que não haja jogos, as pessoas tenham uma personalidade madura e aceitem a posição “eu sou ok – você é ok”.

(*) Thomas Harris, As Relações do Bem-Estar Pessoal, Círculo do Livro S.A., 1969, p. 159/160.