domingo, 16 de maio de 2010

O TEMPO - III

Quem já esteve preso na solitária relata que perdeu literalmente a noção de tempo. Isso acontece porque, para cada um de nós, o tempo é medido pelas informações externas. O relógio, o sol, o calendário na parede, os horríveis programas de televisão de final de semana – tudo isso fornece uma referência sobre o passar do tempo.

Também há a referência interna, medida pelo nosso metabolismo, pela hora de ir dormir, pelo horário do almoço. Pois não é que sentimos fome, sono e outras necessidades fisiológicas de certa forma regularmente? Até os batimentos cardíacos e o ritmo respiratório são regulares e podem nos dar pistas do tempo transcorrido. Mas mesmo na fisiologia pode haver um desvio. Alguns criadores de aves conseguem aumentar em grande escala a produtividade das suas granjas criando condições artificiais, como a iluminação de 18 horas a cada dia. Ou seja, mesmo o “relógio interno” pode ser afetado por fatores externos.

Sabemos que o nosso cérebro joga para o subconsciente tudo aquilo que se repete, para poupar-lhe esforço e permitir que se dedique a informações novas. Assim é que dirigimos sem observar o trajeto de casa para o trabalho, porque já conhecemos tudo. Mas se estivermos viajando por um roteiro desconhecido, a parte consciente do nosso cérebro vai estar atenta. Depois da quarta ou quinta viagem para o mesmo lugar, talvez ele jogue também essa informação para o “piloto automático”.

Como resultado, não temos consciência de muita coisa que fazemos durante o dia, porque agimos automaticamente, sem prestar atenção. E no final do dia dá aquele sentimento de que mais um dia se passou e não fizemos nada.

Há uma corrente psicológica que parte desse princípio e recomenda que se fuja da rotina e se façam sempre coisas novas para eliminar esse sentimento. A simples troca de relógio do pulso esquerdo para o direito mexe com o nosso cérebro, deixando o lado racional de lado. Mas é necessário fazer mais do que isso para fugir a rotina. Por exemplo, conhecer pessoas e lugares novos, tentar novas formas de convívio com a família, aprender música, mecânica de autos ou mais uma língua, vestir-se de uma nova maneira, experimentar fazer o que nunca ousou antes etc.

Quando essas atividades novas envolvem aspectos não-racionais, como artes, música, criatividade etc., melhor ainda, porque passam a utilizar principalmente o lado direito do cérebro.

Manter o cérebro ocupado com necessidades novas e desafiadoras – e sobretudo agradáveis – é interessante não apenas para não ter o sentimento de tempo perdido. É também uma forte recomendação dos geriatras para evitar doenças degenerativas como o Mal de Alzheimer.